Car Park Capital: o asfalto venceu, e o jogador ajudou

Em Acesso Antecipado, a sátira da MicroProse sobre a cidade feita para o carro diverte pelo humor e prende pela engrenagem de gestão

A primeira partida de Car Park Capital começa com uma praça arborizada, um prédio de apartamentos cheio de moradores e uma linha de metrô que funciona bem demais para o gosto de quem assina o contrato com a Big Auto, e não leva muito tempo até que a praça vire estacionamento, o prédio também, e os vagões comecem a circular quase vazios enquanto uma fila de sedãs disputa vaga na porta de um drive-thru de hambúrguer. O riso vem fácil, acompanhado de uma ponta de culpa que o jogo cultiva com cuidado ao longo das horas seguintes.

Lançado na Steam em 9 de outubro em Acesso Antecipado, o título é obra de Hilko Janssen, desenvolvedor independente dos Países Baixos que construiu do zero o próprio motor de jogo, e chega com o selo da MicroProse, a velha casa de Civilization e X-COM. A missão do jogador é levar a “liberdade da dependência do automóvel” a cidades que ainda insistem em ter calçada e árvore, e a surpresa está em descobrir que, sob a piada, existe um simulador de gestão com fôlego de verdade.

Jogabilidade

O ciclo básico se aprende em poucos minutos: comprar um terreno, demolir o que estiver em cima, cobrir de asfalto, cobrar pela vaga e reinvestir o lucro no quarteirão ao lado. A complicação vem depois, quando cada estacionamento novo passa a atrair mais carros e cada carro passa a exigir combustível, o que obriga a perfurar poços, erguer refinarias e organizar caminhões levando óleo de uma ponta à outra do mapa até os postos. Em pouco tempo, a partida que parecia uma brincadeira sobre vagas se transforma num exercício de logística que pede atenção a rotas, gargalos e fluxo de veículos, e é difícil não se pegar redesenhando uma cadeia de petróleo inteira de madrugada por causa de um único posto desabastecido.

As ferramentas de construção em 3D permitem empilhar estacionamentos em altura, e o primeiro edifício-garagem costuma ensinar, pelo método mais duro, que entrada e saída importam tanto quanto o número de andares, já que basta um acesso mal posicionado para travar a avenida principal e derrubar a receita do bairro inteiro.

O que dá personalidade ao sistema são os cidadãos. Cada um carrega suas próprias necessidades, de comida e bebida a combustível, entretenimento e banheiro, e um clique sobre qualquer um deles revela o que pensa da cidade em transformação. É nesse ponto que sátira e mecânica se fundem: o morador despejado reclama do subúrbio sem calçada para onde foi mandado, o motorista satisfeito elogia o hambúrguer saído de uma cadeia de produção que envolve vacas e moedores de carne, e a insatisfação que cresce quando as árvores desaparecem pode ser contida com árvores de plástico fabricadas em série, solução que funciona bem o bastante para deixar um gosto amargo.

A opinião pública tem peso real. Protestos bloqueiam estabelecimentos e contaminam o humor da vizinhança, e o arsenal para lidar com eles vai de outdoors e estátuas reluzentes a caminhões de megafone e polícia de choque, com a resposta mais truculenta resolvendo o problema imediato ao custo de uma imagem que demora a se recuperar. E, para quem ainda duvidava, o banheiro gigante drive-thru existe e pode ser construído, com toda a dignidade que o nome sugere.

O tropeço aparece na metade da partida, quando a cadeia de combustível já está de pé e o Stat-o-matic, painel de estatísticas do jogo, passa a exibir um gráfico que sobe sozinho, deixando poucas decisões realmente difíceis pela frente e longos trechos em que o trabalho se resume a acompanhar o dinheiro entrando. O roteiro do estúdio promete eventos e desastres, justamente o tipo de imprevisto que falta para sacudir essa fase, e a variedade de mapas ainda é pequena, com um cenário em Paris anunciado para as próximas atualizações.

Gráficos e som

Janssen desenvolveu um sistema que converte modelos 3D feitos no Blender em sprites 2D, e o resultado lembra os simuladores de gestão do fim dos anos 90, como SimCity e RollerCoaster Tycoon, com um volume que a pixel art daquela época raramente alcançava. Os carros têm peso, os estacionamentos lotados ganham textura própria e a cidade inteira parece uma maquete viva, embora nas áreas mais densas o trânsito tenda a virar uma massa colorida pouco legível, o que torna mais trabalhoso localizar o ponto exato do congestionamento.

A trilha sonora assinada por Kent Kercher, compositor com passagens por Star Wars: Galaxy’s Edge e Watchmen, acompanha as sessões longas sem cansar e deve ganhar lançamento próprio em breve. Quem rouba a cena, porém, é o Volantinho, assistente que remete sem disfarce ao Clippy do antigo Office e distribui dicas com um cinismo que combina perfeitamente com o tom do jogo.

A localização para o português do Brasil merece destaque, porque o humor foi adaptado e não apenas traduzido, de modo que as falas dos cidadãos soam como reclamações de trânsito ouvidas em qualquer esquina daqui, algo decisivo num jogo cuja graça mora tanto no texto. Os requisitos são modestos (Windows 10 de 64 bits, 8 GB de RAM, placa com suporte a OpenGL 4.2 e 1 GB de espaço) e permitem rodar o jogo sem sustos num notebook comum.

História e narrativa

Não há campanha com personagens nem enredo no sentido tradicional. A narrativa de Car Park Capital está espalhada pelos sistemas e pelos textos curtos, no pensamento de um cidadão, no slogan de um outdoor, na sugestão que o Volantinho oferece justo quando tudo parece desandar, e a ironia nunca se interrompe para explicar a si mesma, o que é uma das suas maiores qualidades.

O limite é que a piada, por mais bem contada, é uma só. Nas primeiras horas, cada construção absurda rende uma gargalhada, mas com o tempo o espanto se dissipa e o jogo passa a depender quase inteiramente da gestão, que felizmente sustenta bem esse peso.

Acesso Antecipado e longevidade

O estúdio estima cerca de dez meses até a versão 1.0, prevista para meados de 2027, com mais mapas, novas construções, eventos, desastres e possível suporte à Oficina da Steam. Até 23 de outubro, o jogo sai por R$ 49,49 com desconto de lançamento, e há um pacote que inclui a trilha sonora.

Veredicto

Car Park Capital transforma uma crítica ao urbanismo voltado ao carro num jogo de gestão que convida a mais uma rodada, sustentado por uma engrenagem de trânsito, produção e opinião pública que vai muito além do humor que abre a porta. A metade da partida carece de tensão e o conteúdo ainda é curto, questões que o Acesso Antecipado promete enfrentar, mas poucas vezes destruir uma cidade foi tão divertido.

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