Você não cansou de jogar. Cansou de cumprir tabela

Antes de culpar o videogame pelo tédio, vale observar como temos jogado. Em muitos casos, o desânimo vem dos hábitos que criamos.

Quando jogar deixa de ser divertido
Imagem gerada por IA

Todo mundo que joga há algum tempo já viveu a cena. A biblioteca está cheia, o controle está na mão, e mesmo assim nada parece valer a pena. Abrimos um título, jogamos vinte minutos e, quando percebemos, estamos rolando a tela do celular ou conferindo quantas horas faltam para os créditos.

É fácil concluir que cansamos de videogame. Aqui no WarMeteor, achamos que essa conclusão costuma ser precipitada. Muitas vezes, o desgaste vem de hábitos que fomos acumulando sem perceber. Isoladamente, parecem inofensivos, mas, somados, deixam o lazer com cara de lista de tarefas.

Guias, viagem rápida, troféus e partidas ranqueadas podem deixar a experiência melhor, e ninguém precisa abrir mão deles. Vale apenas notar quando esses recursos começam a atrapalhar em vez de ajudar.

Quando jogar vira obrigação

O primeiro sinal é a pressa. Quando o objetivo é zerar, a exploração, os diálogos e até as cenas mais marcantes viram obstáculos no caminho dos créditos. Muitas vezes, isso acontece porque o próximo lançamento parece mais urgente do que o jogo atual.

Se outro título está chamando mais atenção, dá para pausar o atual sem culpa. Ninguém precisa terminar uma campanha para começar outra. Anotar onde o personagem parou, o que tinha acabado de acontecer e qual era o próximo objetivo ajuda bastante na hora de retomar.

Outro sinal é tentar fazer tudo o que o jogo oferece. Missões secundárias, colecionáveis e listas de troféus são opcionais. Em alguns jogos, buscar a platina é um prolongamento divertido da campanha; em outros, exige repetir trechos e cumprir tarefas cansativas. Dá para gostar muito de um jogo sem completar tudo, e a vontade de continuar diz mais do que a porcentagem na tela.

Com a dificuldade acontece algo parecido. Um desafio alto pode deixar a vitória mais satisfatória, e tentar, errar e aprender faz parte do prazer de muitos jogos. Mas perder e querer testar outra estratégia é bem diferente de perder e só sentir raiva por ter que repetir tudo. Baixar a dificuldade não invalida a campanha. Para quem está começando, o modo fácil também é uma opção legítima.

Há também o argumento do dinheiro: paguei, então preciso terminar. Mas ter comprado um jogo não obriga ninguém a jogá-lo até o fim, e passar horas sem se divertir não faz a compra valer mais a pena. Essa conta faz mais sentido antes da próxima compra.

Atenção dividida

Parte do problema está na atenção que sobra para o jogo. Com o celular na mão, uma live aberta no outro monitor e notificações chegando o tempo todo, fica difícil prestar atenção na trilha sonora, nos diálogos ou no cenário. Depois, a impressão é de que o jogo não prende.

Vale fazer um teste: deixar o celular em outro cômodo, fechar o que estiver aberto em paralelo e jogar uma sessão inteira sem distrações. Às vezes, isso muda a experiência antes de qualquer troca de jogo.

Ter muitas campanhas abertas ao mesmo tempo também pesa. Cada retomada exige lembrar história, sistemas, comandos e objetivos diferentes, e jogar começa a parecer trabalho. Uma sugestão é manter até três jogos em andamento, de gêneros diferentes. Para quem tem pouco tempo, uma campanha principal pode funcionar melhor.

A viagem rápida é útil, mas, usada sempre, tira parte da descoberta. O caminho entre dois objetivos pode ter itens, encontros inesperados e pistas sobre regiões que ainda não conhecemos. Em jogos de mundo aberto, atravessar uma área a pé ajuda a perceber o tamanho do mapa. Ninguém precisa fazer tudo andando: dá para usar o atalho quando fizer sentido e manter os trajetos que ainda despertam curiosidade.

Quando a internet joga por nós

Como portal, também publicamos notícias, trailers, guias e análises. Por isso mesmo, achamos importante reconhecer que o excesso desse tipo de conteúdo pode atrapalhar quem está jogando.

Um exemplo é a comparação. Vemos um streamer ou speedrunner passando por uma fase sem dificuldade e concluímos que jogamos mal. Mas essa pessoa geralmente tem anos de prática com câmera, comandos e mecânicas parecidas. Para quem está aprendendo, controlar o personagem e a câmera ao mesmo tempo já é um desafio. Faz mais sentido comparar cada tentativa com a anterior.

Outro exemplo é a busca pela opção mais eficiente. Quando descobrimos qual arma é considerada a melhor ou qual rota é a mais rápida, qualquer alternativa parece um erro, e deixamos de experimentar. Na primeira campanha, vale reduzir esse consumo, principalmente de vídeos que mostram partes mais avançadas.

Com os guias, a lógica é parecida. Eles ajudam quando o jogador realmente trava, e uma consulta pontual não estraga nada. O problema é abrir o tutorial antes mesmo de tentar. Um jeito equilibrado de usar ajuda:

  1. Tentar entender o desafio com o que o jogo oferece.
  2. Identificar exatamente o que está travando o avanço.
  3. Pesquisar só aquela dúvida.
  4. Fechar o guia assim que der para seguir.

Por último, há o FOMO, o medo de ficar de fora. Com anúncios e trailers todos os dias, é comum sentir que estamos atrasados, mesmo no meio de uma campanha que estamos gostando. Acompanhar novidades é bom enquanto desperta interesse. Se começa a gerar ansiedade ou vontade de comprar algo fora do orçamento, talvez seja hora de olhar mais para os jogos que já temos.

Variar o que jogamos

Se os jogos recentes parecem todos iguais, talvez o problema esteja no tipo de jogo que temos escolhido. Grandes produções, as chamadas AAA, costumam repetir estruturas conhecidas. Jogos independentes e produções médias, as AA, tendem a arriscar mais, e há muitos títulos para conhecer em plataformas como o itch.io. Indies não são automaticamente melhores, mas ajudam a ampliar o repertório.

O mesmo vale para as escolhas dentro de cada jogo. Usar sempre a mesma classe, a mesma build e a mesma estratégia faz jogos diferentes parecerem repetidos. Em RPGs, mudar a combinação de atributos e equipamentos muda a forma de enfrentar os desafios. Trocar de gênero também ajuda: quem costuma jogar ação pode gostar de um jogo de estratégia.

No multiplayer competitivo, há desafio, convivência e diversão. Mas, se as partidas costumam terminar em ofensas, brigas e irritação com o próprio time, talvez o problema seja aquele ambiente, e não os videogames em geral. Alternar com uma campanha single-player ou um jogo mais leve ajuda a perceber a diferença.

O que defendemos

Tentar mudar tudo de uma vez só criaria mais uma lista de obrigações. Nossa sugestão é escolher o incômodo mais parecido com o seu e mudar uma coisa na próxima sessão: pausar em vez de correr, ignorar os colecionáveis, guardar o celular, trocar de gênero ou dar um tempo do ranqueado.

Depois, em vez de contar horas jogadas ou troféus, vale fazer perguntas simples: você ficou curioso? Se envolveu com o jogo? Teve vontade de voltar no dia seguinte?

Se nada disso funcionar, uma pausa também é uma opção. Livros, séries, filmes e outros hobbies podem ocupar esse tempo sem que seja preciso decidir se você parou de jogar para sempre. Gostos mudam, e a vontade pode voltar mais adiante.

No WarMeteor, acreditamos que cada pessoa pode jogar do jeito que preferir: devagar, no modo fácil, com ajuda de guias ou abandonando um jogo no meio. Desligar o console por um tempo também faz parte dessa escolha. O que importa é jogar porque se tem vontade.

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