Dublar é muito mais do que ter uma voz reconhecível. É interpretar, sincronizar, entender o ritmo de quem está na tela e encontrar uma verdade em português que faça o público esquecer que existe uma voz por trás daquele personagem.
Depois de décadas na profissão, sigo acreditando nisso. A dublagem exige técnica, preparo e muita entrega emocional, seja para fazer um personagem explosivo como Bob Esponja, um herói como Goku, um cozinheiro apaixonado como Sanji ou um ator dramático em filmes que ficam para sempre na memória.
Dar voz ao Bob Esponja continua sendo uma diversão
Já faz alguns anos que não dirijo mais os episódios de Bob Esponja. Administrar um estúdio, uma empresa e uma equipe grande ocupa um tempo enorme, e fica praticamente impossível permanecer preso dentro da sala de gravação como diretor de todos os episódios.
Mas continuar dublando o Bob Esponja ainda é um barato. É engraçado, divertido e continua sendo um desafio físico. O personagem exige muito da voz, e às vezes a gravação deixa marcas. Mesmo assim, é uma felicidade enorme fazer parte da história de alguém que atravessou gerações e faz sucesso no mundo inteiro.
Quando um personagem chega aos filhos de quem trabalha com ele, ganha um significado ainda mais especial. Bob Esponja é uma dessas presenças que passam de uma geração para outra, e poder emprestar minha voz a ele é uma honra muito grande.
Como foi a dublagem de Ultraman para um espetáculo teatral
O processo de dublagem de Ultraman para um show de teatro teve uma lógica diferente da dublagem convencional. Eu tinha lembranças da franquia desde criança, com flashes de Ultraman, Ultraseven e outros heróis japoneses que marcaram aquela época.
Nesse caso, o trabalho se parecia mais com a localização de games. As vozes eram entregues separadas por canais de personagem, com o texto disponível para acompanhamento. Era preciso ouvir a fala original e recriá-la em português dentro de uma duração muito próxima.
Não precisava coincidir exatamente em cada milésimo de segundo como em uma dublagem com imagem, mas era necessário manter o tamanho da fala. Afinal, todo o espetáculo era coreografado sobre aquele áudio. Se a fala ficasse longa ou curta demais, poderia comprometer a cena.
Fazer parte de algo assim é muito gostoso. É diferente, exige atenção e mostra como a voz pode contribuir para projetos que vão muito além da tela.
Naruto, expectativa do público e a responsabilidade de entrar em uma franquia gigante
No começo, participar de Naruto em personagens menores era um trabalho como tantos outros. Eu ia ao estúdio, fazia a dublagem e seguia para o próximo projeto. O anime ainda estava se consolidando no Brasil e a dimensão que ele ganharia não era a mesma de anos depois.
Quando surgiu a oportunidade de interpretar um personagem que vinha sendo pedido pelo público, a situação mudou completamente. Havia expectativa nas redes sociais, comentários, pedidos e muita gente acompanhando cada decisão do elenco.
Isso traz uma responsabilidade diferente. Você não chega apenas para fazer uma participação. Você sabe que muitas pessoas já ouviram a voz original em japonês ou em inglês e têm uma referência muito forte na cabeça.
O personagem tinha uma voz original muito grave, pesada e ameaçadora, enquanto a minha voz não segue naturalmente por esse caminho. Então a escolha não foi tentar imitar uma voz que eu não tenho. A solução foi trabalhar a interpretação.
Em vez de forçar um grave artificial, busquei uma entonação mais densa, carregada e quase maldosa. A força estava no tom, na intenção e na presença do personagem, não na tentativa de reproduzir literalmente o timbre original.
Foi um processo tenso, mas a recepção foi muito boa. Fazer parte de uma obra tão importante como Naruto é uma bênção e uma oportunidade pela qual só posso ser grato.
Projetos recentes e novas dublagens
Entre os trabalhos mais recentes, participei de Minions e Monstros, interpretando um dos monstros, Phillips. Também há uma participação em A Odisseia, produção com Robert Pattinson.
Além disso, há novos episódios de Bob Esponja e outros projetos em andamento, envolvendo atores que já dublo e séries das quais já faço parte. Nem tudo pode ser anunciado antes da hora, mas é bom saber que continuam surgindo personagens e histórias para construir.
O que mais mudou no mercado de dublagem
Uma das maiores mudanças ao longo dos anos foi a relação entre dubladores, imprensa, público e marketing. Hoje, as plataformas e os estúdios entendem muito mais claramente a importância da dublagem.
Em muitos projetos, uma parcela enorme do público brasileiro escolhe consumir a obra dublada. Em alguns casos, esse número chega perto da totalidade. Isso fez com que empresas como a Netflix, por exemplo, passassem a dar mais visibilidade aos profissionais de voz.
As campanhas de divulgação também mudaram. Dubladores passaram a aparecer em ações promocionais, entrevistas e materiais de marketing, representando personagens e filmes de forma mais direta. Essa projeção trouxe mais respeito ao trabalho de dublagem.
Ao mesmo tempo, os próprios profissionais passaram a compreender ainda mais o peso de sua postura, dedicação e profissionalismo. Quando existe um anonimato absoluto, algumas pessoas podem se sentir tentadas a fazer o trabalho de qualquer jeito. Mas, quando há um público atento e uma profissão cada vez mais reconhecida, a responsabilidade aumenta.
Mais visibilidade não substitui talento, mas reforça a necessidade de compromisso com a qualidade.
As cenas mais difíceis de dublar
Existem muitas cenas difíceis, cada uma por um motivo. Uma das mais trabalhosas de que me lembro aconteceu em Efeito Borboleta, com Ashton Kutcher.
Em uma cena, o personagem precisava gritar o alfabeto grego no ouvido de outra pessoa. Isso exigiu decorar o alfabeto grego, sincronizar cada palavra com a imagem e ainda fazer tudo gritando, com urgência e intensidade.
Falar letras comuns já é uma coisa. Falar alfa, beta, gama e seguir em frente, mantendo o ritmo exato e uma interpretação convincente, é outra completamente diferente. Não era uma cena que permitia fazer de forma leve. Precisava soar desesperada, forte e real.
Personagens e atores que ocupam um lugar especial
Há atores que criam uma relação afetiva com quem os dubla. Ryan Gosling é um deles. A primeira vez que o dublei foi em Diário de uma Paixão, um filme de que gosto muito e que tem uma dublagem muito especial para mim.
Edward Norton também é um ator que sempre me deixa feliz quando chega um trabalho novo. E Sean Astin é outro nome muito querido. Mesmo em projetos de animação, em que talvez ninguém soubesse imediatamente quem era o ator original, foi muito legal ser chamado para dublá-lo novamente.
Mas o personagem mais especial da minha vida é, sem dúvida, Goku. Ele está ligado à minha carreira, à minha trajetória e à forma como muita gente me reconhece. Goku se tornou parte da minha história de uma maneira que vai muito além de um papel profissional.
Dublagem ou localização de games: o que é mais difícil?
Dublar é muito difícil porque você precisa interpretar dentro do ritmo, da articulação e da inflexão que outra pessoa já estabeleceu. Ao mesmo tempo, tudo precisa soar natural em português.
É uma união complicada entre técnica e interpretação. São elementos que parecem separados, mas precisam funcionar juntos. Não basta dizer o texto corretamente. É preciso encaixar emoção, tempo, movimento de boca e intenção.
A localização de games traz outra dificuldade importante: normalmente não existe imagem. A percepção precisa ser praticamente toda auditiva.
Em muitos jogos, você recebe apenas as falas do seu personagem e o áudio de referência. Não há vídeo, não há cena pronta e, muitas vezes, não há a réplica completa do colega com quem o personagem contracena.
- Na dublagem, há a imagem e a necessidade de sincronismo.
- Na localização de games, há menos referência visual e menos apoio de diálogo.
- Nos dois casos, a interpretação precisa chegar ao resultado final com verdade.
Mesmo sem imagem, é necessário ouvir com atenção e reproduzir a emoção certa. Uma fala gravada hoje pode entrar amanhã em uma cena complexa, com corte, trilha, animação e interação. Quanto mais fiel estiver a intenção, melhor a cena vai funcionar quando todos os elementos forem unidos.
Emoção real é parte do trabalho
Para uma cena emocionante funcionar, é preciso se envolver de verdade. Se a emoção é fingida, o resultado pode ficar artificial. E isso aparece.
Algumas histórias ficam marcadas para sempre. A primeira morte do Goku, por exemplo, teve um impacto muito forte porque eu ainda não conhecia a série profundamente e pensei que ele realmente tivesse saído da trama. Fiquei revoltado.
Outro momento marcante foi em Cake Boss, quando Buddy Valastro contou que sua mãe tinha uma doença degenerativa. Ele se emocionava diante da câmera, e eu acabei chorando junto durante a dublagem.
Como diretor, isso também acontece. Em A Vida em Si, era preciso apresentar a história aos protagonistas antes das gravações, explicar os personagens, o rumo da trama e o que cada cena exigia. Toda vez que eu contava aquela história, me emocionava.
O mesmo aconteceu com Amigos Imaginários, uma obra simples, poética e muito bonita. Houve momentos em que contei a história chorando e também me emocionei durante a direção de determinadas cenas.
Esse envolvimento vale para a alegria, para o drama e para qualquer sentimento. Quando a pessoa que está no microfone acredita naquilo, a emoção tem mais chance de chegar ao público.
Como entrar para a dublagem
Entrar para a dublagem é difícil, assim como entrar em um grande escritório de advocacia, construir uma carreira consolidada como dentista ou conseguir espaço no cinema e na televisão. Existe caminho, preparação e muita pedra no meio da estrada.
O primeiro passo importante é ter formação de ator. É necessário fazer teatro e obter o registro profissional. Um curso de dublagem não é obrigatório, mas ajuda muito porque oferece uma experiência inicial fundamental.
Começar a dublar sem essa preparação seria como querer entrar na Fórmula 1 sem nunca ter dirigido um carro rápido. Talvez exista vontade, mas falta o domínio necessário para atuar naquele nível.
O caminho mais direto passa pelos diretores de dublagem
Para buscar oportunidades, é mais produtivo entrar em contato com diretores de dublagem do que simplesmente procurar estúdios. O estúdio é uma instituição, e muitas vezes não existe um caminho claro de conversa com quem faz as escolhas artísticas.
Os diretores estão mais próximos da escala, do teste, do elenco e da rotina de gravação. Construir contatos profissionais com respeito e seriedade faz parte do processo.
Há espaço para vozes maduras e crianças
O mercado tem muitas vozes jovens, mas ainda precisa bastante de vozes maduras, tanto masculinas quanto femininas. Profissionais acima dos 40 ou 50 anos podem encontrar menos barreiras em certos perfis justamente porque há demanda por esse tipo de voz.
Crianças também são muito necessárias, mas existe uma particularidade: quando uma criança começa a dublar bem e ganha prática, sua voz logo muda. É um ciclo constante, e por isso sempre há procura por novos talentos infantis.
Cuidados com a voz para quem trabalha com dublagem
Eu não sou exatamente o melhor exemplo de disciplina vocal, porque trabalho muito e nem sempre sigo todos os cuidados como deveria. Mas, depois de períodos de rouquidão, fica claro que não dá para ignorar a manutenção da voz.
Um dublador precisa tratar a voz como um atleta trata o corpo. Isso inclui acompanhamento com otorrinolaringologista, fonoaudiólogo, exercícios e atenção aos sinais de desgaste.
Os cuidados básicos são simples, mas fazem diferença:
- Dormir bem.
- Beber bastante água.
- Fazer aquecimento vocal antes de gravar.
- Fazer relaxamento vocal ao fim do dia ou depois da última sessão.
- Evitar chocolate e café nos períodos próximos às gravações.
- Fazer limpeza nasal quando necessário.
- Buscar avaliação médica em casos como desvio de septo.
Também é fundamental aprender a gritar corretamente. Em filmes, séries e animações, há cenas em que o personagem grita de verdade. Não dá para apenas fingir, mas também não dá para destruir a voz a cada tomada.
Quem não sabe gritar pode perder a voz logo depois ou acabar fazendo um grito fraco, sem impacto. A técnica permite entregar intensidade sem transformar cada sessão em um risco para a saúde vocal.
Por que a dublagem se tornou meu foco
Comecei a dublar aos cinco anos de idade e nunca mais parei. Ao mesmo tempo, trabalhei em praticamente todas as áreas que um ator pode experimentar: teatro, televisão, cinema, publicidade e muito mais.
Por volta dos 22 anos, entendi que queria concentrar minha carreira na dublagem. Era o trabalho que me deixava mais feliz.
Uma das coisas mais bonitas da profissão é que você consegue construir o próprio caminho essencialmente com talento, capacidade e profissionalismo. Em outras áreas, às vezes parece que é preciso estar em lugares demais, conhecer pessoas demais ou participar de dinâmicas que não têm a ver diretamente com o trabalho artístico.
Na dublagem, claro que é necessário socializar, criar contatos e fazer networking profissional. Mas existe uma verdade muito objetiva: se você não dubla bem, não vai avançar. Não importa de quem você seja filho ou quem conhece.
Quem trabalha bem, é profissional e se dedica tem espaço para crescer.
A voz importa, mas a interpretação importa mais
Muita gente se surpreende ao descobrir que a voz de um personagem intenso pode ser a mesma de alguém completamente diferente, como Bear Grylls. E muitas vezes não existe uma transformação caricata de voz por trás disso.
O grande segredo da dublagem não está necessariamente em fazer uma voz diferente. Está em vestir o personagem, preencher aquele corpo que está na tela e oferecer a serenidade, a energia ou a angústia que a cena pede.
Há casos em que a voz do dublador se torna mais forte do que o personagem. Quem já conhece aquele timbre percebe imediatamente a repetição de um mesmo jeito de interpretar em todos os papéis. Quando isso acontece, a voz chama mais atenção do que a história.
O ideal é que o público pare de reparar na voz e absorva o conteúdo. Para isso, não penso racionalmente em “qual voz vou fazer”. Eu presto atenção no que o ator ou o personagem está realizando e deixo a interpretação sugerir o caminho.
Às vezes surge uma voz mais leve, mais grave, mais rouca ou mais rápida. Outras vezes, muda a articulação, o ritmo ou a energia. Mas a escolha nasce do que está na tela, não de uma coleção de vozes guardadas para encaixar em qualquer personagem.
Diário de uma Paixão: uma história que nunca saiu da cabeça
Existem trabalhos dos quais a gente não desapega. Diário de uma Paixão é um deles.
É uma história que marcou profundamente. Sempre que aparece alguma lembrança relacionada ao filme, volto a pensar na obra, na gravação, no estúdio, na direção e na experiência de dublar Ryan Gosling naquele papel.
É uma história bonita, com atores muito bons, e que provoca reflexões pessoais sobre amor, paixão e a forma como se deseja viver. Alguns filmes acabam quando termina a gravação. Outros continuam acompanhando a gente por muitos anos.
Sanji no anime e no live action de One Piece
Dublar Sanji no anime e no live action de One Piece são experiências bem diferentes.
No anime, tudo é mais exagerado. A interpretação é maior, mais intensa, mais estilizada. Para o Sanji animado, existe uma construção mais roqueira, com uma textura vocal raspada, que combina com o cigarro do personagem e com a energia exagerada daquele universo.
No live action, a proposta é outra. Mesmo dentro de uma história lúdica, a intenção foi tornar os personagens mais críveis, mais humanos e mais próximos de pessoas reais.
O Sanji do live action não fala como uma figura completamente caricata. Quando se aproxima de personagens como Nami ou Robin, por exemplo, ele não entra naquela exaltação extrema do anime. A interpretação é mais natural, com uma voz mais próxima da fala cotidiana.
Essa é a principal diferença:
- No anime: interpretação expansiva, estilizada e exagerada.
- No live action: interpretação mais humana, contida e verossímil.
São dois caminhos diferentes para o mesmo personagem, e os dois precisam respeitar a linguagem da obra em que ele existe.
O talento precisa encontrar técnica, verdade e dedicação
A dublagem é uma arte de detalhes. É voz, mas também é corpo, intenção, ritmo, emoção e escuta. É saber quando exagerar, quando conter, quando chorar, quando gritar e quando simplesmente deixar a interpretação acontecer.
Personagens como Goku, Bob Esponja e Sanji fazem parte dessa trajetória, mas cada novo trabalho traz a chance de descobrir alguma coisa diferente. É isso que mantém a profissão viva: a possibilidade de entrar em histórias novas e fazer com que elas soem naturais, emocionantes e verdadeiras em português.

Formado em Tecnologia em Informática e Sistemas de Informação. Gamer e entusiasta da cultura Nerd e Geek.
