Playtika e Microsoft citaram a inteligência artificial ao anunciar cortes em 2026, mas os dados indicam que a tecnologia pesa mais na disputa por orçamento do que na substituição direta de profissionais

A inteligência artificial passou a aparecer com frequência nos anúncios de demissão da indústria de games. Em 2026, ela foi citada nos cortes da desenvolvedora mobile Playtika e esteve no pano de fundo da reestruturação da divisão Xbox, da Microsoft. No mesmo período, mais da metade dos profissionais ouvidos pela pesquisa anual da GDC disse que a IA generativa está prejudicando o setor.
A IA está tirando empregos nos games ou virou a justificativa mais conveniente para cortes que já estavam no radar? O WarMeteor reuniu os números disponíveis.
Playtika: o corte que citou a IA com todas as letras
O caso mais explícito do ano veio em janeiro. A Playtika, dona de jogos como Bingo Blitz e World Series of Poker, informou em documento enviado à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, que cortaria cerca de 15% da equipe global no primeiro trimestre, segundo o Insider Gaming. Isso representa entre 450 e 500 pessoas.X
No e-mail aos funcionários, anexado ao documento, o CEO Robert Antokol afirmou que a empresa deixaria as operações baseadas em grande número de pessoas para adotar equipes enxutas apoiadas em IA e automação, conforme relatou o Outlook Respawn. A reestruturação deve custar entre US$ 12 milhões e US$ 15 milhões, principalmente em indenizações.
O contexto financeiro pesa tanto quanto a tecnologia. A Playtika valia US$ 11,1 bilhões ao abrir capital, em janeiro de 2021, e estava avaliada em cerca de US$ 1,4 bilhão na época do anúncio. A receita também caiu em 2023 e 2024, de acordo com o jornal israelense Globes. Este é o quarto grande corte da empresa desde junho de 2022, segundo o WN Hub.
Xbox: quando a IA disputa o orçamento dos games
Em julho, a Microsoft iniciou uma reestruturação na divisão Xbox, com cerca de 1.600 demissões imediatas e outras 1.250 previstas para o ano seguinte, dentro de um corte de aproximadamente 4.800 posições na empresa, segundo o Olhar Digital, com base em reportagem do The New York Times. Parte dos estúdios foi encerrada, e outros devem ser vendidos ou transformados em empresas independentes.X
A relação com a IA, nesse caso, é diferente da observada na Playtika. A Microsoft não anunciou que ferramentas automatizadas fariam o trabalho de quem saiu. A empresa vem direcionando investimentos bilionários para infraestrutura de inteligência artificial, e áreas fora dessa prioridade passaram a sofrer pressão por cortes.
Para os profissionais demitidos, a consequência é a mesma. A diferença está no mecanismo: no Xbox, a IA entrou na conta como concorrente pelo orçamento que sustenta o desenvolvimento de jogos.
O que dizem os profissionais do setor
O retrato mais amplo vem do State of the Game Industry 2026, pesquisa anual da GDC com mais de 2.300 profissionais. Os números ajudam a separar percepção do que já aparece nos dados:
- 28% dos entrevistados foram demitidos nos últimos dois anos. Entre os que trabalham nos Estados Unidos, são 33% (Business Wire);
- 36% usam ferramentas de IA generativa no trabalho. Nos estúdios de games, o índice cai para 30%. Em publishers, suporte e marketing, sobe para 58% (GamesBeat);
- O uso mais comum é pesquisa e brainstorming (81%), seguido de tarefas do dia a dia, como escrever e-mails, e apoio em código (47% cada);
- 52% acham que a IA generativa está prejudicando a indústria. Eram 30% no ano anterior e 18% dois anos antes (Hitmarker).
Quem mais adota a IA está nas áreas de negócio, longe da criação. A rejeição, por outro lado, é maior entre quem faz os jogos. Segundo a GDC, a percepção negativa chega a 64% entre profissionais de arte visual e técnica, 63% entre os de game design e narrativa e 59% entre programadores.
Causa ou justificativa?
As demissões nos games não começaram com a IA generativa. A indústria enfrenta uma sequência de cortes desde 2022, associada a orçamentos de produção cada vez maiores e ao fim do boom da pandemia. Em 2026, a lista inclui casos sem nenhuma ligação declarada com IA.
A EA demitiu funcionários de equipes ligadas à Battlefield Studios e de áreas como suporte ao cliente, TI e recrutamento, mesmo depois de Battlefield 6 ter sido o jogo mais vendido de 2025, segundo o Olhar Digital. A Ubisoft eliminou 105 vagas na Red Storm, estúdio cofundado por Tom Clancy, segundo a Cinevva. Em junho, a publisher francesa fechou mais dois estúdios, em Winnipeg, no Canadá, e em Belgrado, na Sérvia, conforme o Olhar Digital, enquanto segue investindo em ferramentas de IA generativa.
Nesses casos, empresas sob pressão financeira cortam custos e, ao mesmo tempo, apostam na IA como promessa de eficiência. A tecnologia aparece no discurso sobre o futuro, mas raramente como explicação única para o corte. O Olhar Digital descreveu o cenário como um paradoxo da indústria: lucros recordes convivendo com demissões em massa.
E o Brasil com isso?
Os efeitos por aqui podem chegar por um caminho indireto. Segundo a 2ª Pesquisa Nacional da Indústria de Games, feita pela Abragames com a ApexBrasil, o país tinha 1.042 estúdios e 13.225 profissionais, com dados de 2022 coletados em 2023. Metade dos estúdios que exportam tira mais de 70% do faturamento de clientes no exterior, principalmente nos Estados Unidos e na América Latina.X
Boa parte desse trabalho é prestação de serviço: arte, engenharia e codesenvolvimento para empresas de outros países. São justamente as áreas em que as grandes publishers prometem ganhos de eficiência com IA. Se essa promessa se concretizar, a demanda que hoje chega aos estúdios brasileiros pode encolher.
Por enquanto, não há dados públicos que meçam esse efeito no Brasil. É uma pergunta que a Abragames e os próprios estúdios ainda precisam responder.
O que os números permitem afirmar
Os dados de 2026 não sustentam a ideia de que a IA, sozinha, esteja substituindo quem faz jogos. Ela aparece nos cortes de duas formas: como promessa de eficiência em empresas que já precisavam reduzir custos, caso da Playtika, e como concorrente por orçamento, caso do Xbox.
Isso não diminui a preocupação de quem trabalha no setor. A parcela de profissionais que vê a IA generativa como prejudicial quase triplicou em dois anos. Mesmo quando não substitui ninguém diretamente, a tecnologia tem sido usada para justificar equipes menores.
Para quem joga, vale acompanhar quais funções as empresas dizem que vão automatizar e se a qualidade dos lançamentos se mantém com equipes mais enxutas.
E você, acha que a IA vai mudar a forma como os jogos são feitos? Conta nos comentários.

Jornalista, especialista em SEO e Marketing de Conteúdo, e autora do livro de poemas “Histórias Digitais – Versos em Atualização”. Interessada por cultura pop, literatura e tecnologia, utiliza sua experiência em comunicação para oferecer uma curadoria de conteúdo precisa e confiável no Portal WarMeteor.
