Brasil já ultrapassa 244 Mbps de velocidade média, mas latência e perda de pacotes ainda definem a qualidade da experiência para o público gamer e o home office.

O acesso à internet no Brasil vive uma fase de expansão contínua e acelerada. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua): TICs, nos últimos dois anos, mais 6,1 milhões de brasileiros passaram a se conectar, elevando o índice de usuários para 89,1% da população com 10 anos ou mais em 2024. Embora a velocidade média nacional tenha atingido a marca de 244,46 Mbps — um salto de 20% em relação ao ano passado conforme o Ranking Minha Conexão —, um novo paradigma surge: a velocidade bruta não é mais o único diferencial.
Para quem disputa partidas competitivas ou depende de videochamadas estáveis para o trabalho remoto, fatores técnicos como latência (ping) e perda de pacotes tornaram-se os verdadeiros protagonistas. Enquanto a banda larga fixa chega a 88,9% dos domicílios conectados, a escolha entre usar um cabo ethernet, o Wi-Fi ou a nova rede 5G pode ser o fator decisivo entre o sucesso e a frustração digital.
O fator latência: por que “mega” não é tudo
Muitos usuários cometem o erro de acreditar que um plano de 500 Mbps ou 1 Gbps garante, por si só, uma experiência sem interrupções. No entanto, na indústria de games e na comunicação em tempo real, o conceito de latência é soberano. Medido em milissegundos (ms), o ping representa o tempo que um pacote de dados leva para viajar do dispositivo do usuário até o servidor e retornar.
“Muita gente contrata um plano robusto e continua tendo problemas nos jogos. Isso acontece porque olham só para a velocidade, mas não entendem que o ‘caminho’ que os dados percorrem pode causar instabilidade”, explica Thomas Gandini, CEO da NoPing. Em jogos de tiro ou ação, uma latência alta resulta em comandos atrasados; em reuniões de trabalho, causa as famosas “travadas” de áudio e vídeo.
Cabo Ethernet: o padrão de ouro da estabilidade
Apesar da onipresença das redes sem fio, a conexão cabeada via ethernet permanece como a recomendação absoluta para profissionais e entusiastas. Uma análise recente da nPerf revela o abismo de performance: entre julho de 2024 e junho de 2025, a fibra óptica via cabo apresentou uma latência média de apenas 14 ms em operadoras como a Vivo. Em comparação, as redes móveis 5G das principais operadoras oscilam entre 34 e 45 ms.
A vantagem do cabo é a imunidade a interferências. Enquanto o sinal de Wi-Fi é degradado por paredes, espelhos e até outros eletrodomésticos, o cabo oferece um canal direto e constante. Para Victor Hugo Cebratelli, COO do Team Solid, o uso de cabos é uma norma institucional. “Na nossa gaming house, todos os computadores são ligados via cabo. Quando você disputa prêmios de milhares de dólares, não pode arriscar uma oscilação”, afirma. A única desvantagem apontada é a logística de instalação e a perda de mobilidade.
As armadilhas do Wi-Fi e a praticidade moderna
O Wi-Fi evoluiu consideravelmente com as bandas de 5 GHz, capazes de entregar velocidades de até 800 Mbps. No entanto, a performance é volátil. Testes práticos mostram que uma conexão de 250 Mbps no Wi-Fi 5 GHz pode despencar para 80 Mbps na frequência de 2.4 GHz, trazendo consigo o “jitter” (variação do ping), que causa o lag imprevisível.
Para atividades menos críticas, como navegação geral e videochamadas no Zoom ou Teams, o Wi-Fi bem configurado é suficiente. Especialistas sugerem que o roteador seja posicionado centralmente, sem obstáculos físicos, para maximizar o sinal. Todavia, Cebratelli alerta que, mesmo com roteadores de última geração, os 5% de instabilidade inerentes ao sinal sem fio costumam ocorrer justamente nos momentos decisivos das partidas.
5G no Brasil: alta velocidade com latência móvel
O 5G chegou com a promessa de revolucionar a mobilidade, mas ainda busca maturidade para substituir conexões fixas em uso crítico. Dados da nPerf mostram que as velocidades de download são impressionantes: a Claro lidera com 271 Mbps, seguida pela Vivo (248 Mbps) e TIM (237 Mbps).
Contudo, a latência do 5G no Brasil ainda é significativamente superior à da fibra óptica. Além disso, a tecnologia sofre com o congestionamento da rede e a distância das torres (ERBs). O 5G é a escolha ideal para quem precisa de internet de alta performance na rua ou em trânsito, mas, para o uso doméstico fixo, a fibra ainda detém a coroa da estabilidade.
Perda de pacotes: o inimigo silencioso de 82 milhões de jogadores
De acordo com a Pesquisa Game Brasil (PGB) 2025, o Brasil possui uma comunidade gigantesca, com mais de 170 milhões de pessoas interagindo com games digitais. Um problema recorrente para esse público é a perda de pacotes — quando partes da informação se “perdem” no trajeto entre o computador e o servidor.
Esse fenômeno causa o efeito “rubberbanding”, onde o personagem volta para uma posição anterior subitamente. O mais frustrante é que a perda de pacotes raramente aparece em testes de velocidade convencionais. “O usuário vê ‘500 mega’ no teste, mas o jogo trava porque os dados estão sendo descartados no caminho”, pontua Gandini. Isso reforça a necessidade de olhar além do marketing das operadoras.
A solução profissional: otimização de rotas
Para contornar as limitações das infraestruturas padrão, equipes de e-sports têm adotado softwares de otimização de roteamento. Essas ferramentas analisam em tempo real os caminhos que os dados percorrem pela internet. Muitas vezes, uma operadora pode direcionar o tráfego por um ponto congestionado; o software de otimização identifica esse gargalo e redireciona os pacotes por rotas mais curtas e estáveis.
“Nossos atletas conectam em servidores internacionais constantemente. A otimização resolve o problema de passar por 20 pontos de conexão diferentes até chegar aos EUA ou Europa”, explica Cebratelli. Essa abordagem mostra que o hardware (cabos e roteadores) é apenas metade da equação; a inteligência do tráfego de dados é a outra metade.
Veredito: qual conexão escolher?
A escolha ideal depende estritamente do perfil do usuário:
- Vá de Cabo Ethernet – se você é um gamer competitivo, faz transmissões ao vivo (streaming) ou trabalha com operações que exigem resposta em tempo real (como o mercado financeiro);
- Vá de Wi-Fi – se você preza pela mobilidade com notebooks e smartphones, consome vídeos em 4K (Netflix/YouTube) e realiza reuniões ocasionais;
- Vá de 5G – se você precisa de produtividade fora de casa ou mora em regiões onde a infraestrutura de fibra óptica ainda não chegou.
A internet brasileira nunca foi tão rápida, mas a qualidade da experiência hoje é medida em milissegundos. Entender a diferença entre largura de banda e estabilidade de rota é o primeiro passo para qualquer usuário que deseja extrair o máximo de sua conexão, seja para o lazer ou para o sustento profissional.

Jornalista, especialista em SEO e Marketing de Conteúdo, e autora do livro de poemas “Histórias Digitais – Versos em Atualização”. Interessada por cultura pop, literatura e tecnologia, utiliza sua experiência em comunicação para oferecer uma curadoria de conteúdo precisa e confiável no Portal WarMeteor.
